segunda-feira, 13 de setembro de 2010

''Celular
Quando olhei para o celular para a trigésima vez naquele dia, senti vergonha. Eram três horas da tarde e eu parecia uma dessas idiotas que ficam olhando o celular de cinco em cinco segundos. Eu parecia uma dessas idiotas que ficam nervosas cada vez que o telefone toca achando que poderia ser. Mas nunca é. E eu senti uma puta vergonha disso. Não é assim. Não sou assim. Não era assim. Olho o celular e eu entendo. Não é amor, não é paixonite aguda, não é qualquer-coisa-idiota à primeira vista. É só esse vazio gigantesco que bate de vez em quando e faz o nível de carência aumentar significativamente. É essa falta que dá uma pontada na barriga e faz eu ficar pensando em alguém antes de dormir. Não é amor, não se sinta assim tão honrado e orgulhoso. Não se ache tanto. Porque não é amor e nem nada do tipo. É só vazio. É só falta. É só carência. É só essa manina boba e chata de ficar imaginando como poderia ter sido uma história de amor. É só essa mania de hollywoodizar tudo. De ver conto de fadas em tudo. É só essa mania de esperar algum era um vez alguma coisa. Sem essa de achar que eu te amo. É só a saudade de ter alguém que dá de vez em quando. Mas a parte de mim que olha o celular pela trigésima quinta vez, acha que ele podia ligar. Que ele podia aproveitar o momento. Aproveitar a carência. Aproveitar o vazio. Ele podia tentar preencher essas lacunas que tão aqui. A oportunidade tá aí, não tá vendo? Olha que chance de ouro. Meu coração vaziozinho pra você, é só você querer entrar. É só ligar. É só fazer de tudo para me conquistar, mas sem parecer apaixonado demais que é pra eu não enjoar. Pra eu não achar que tá fácil demais. Ele podia. Aí o dia acaba, as horas passam e eu já olhei o celular mais do que meu orgulho permite. Uma hora ele vai ligar. É sempre assim. Uma hora. Quando eu desencanar, quando eu parar de olhar o celular de cinco em cinco segundos. Ele vai ligar. E vai querer alguma coisa. É sempre assim. Quando eu esquecer, ele vai ligar. Resta saber se o celular já não tocou. Se não era outro alguém. E, o que mais ferra tudo, se eu já não atendi. É sempre assim. Simples assim…. ''

Karine Rosa

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